Impacto da seca e calor no calendário do cacau na Amazônia

Entenda como a seca extrema e o calor intenso afetam o calendário do cacau na Amazônia.
13/07/2025 às 06:22 | Atualizado há 2 meses
Cacau na Amazônia
Produtores do Xingu adaptam cultivos centenários às altas temperaturas e seca intensa. (Imagem/Reprodução: Infomoney)

A crise climática está transformando drasticamente a produção de Cacau na Amazônia, impactando diretamente os produtores na região do Xingu, no Pará. O que antes era um período de colheita abundante em março se tornou um desafio, com a seca extrema de 2024 agravando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores. As mudanças climáticas estão reconfigurando o calendário agrícola, ameaçando tradições de cultivo que duram séculos.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou estado crítico de escassez hídrica nos rios Xingu e Iriri, intensificando os problemas. A seca, que normalmente duraria seis meses, se prolongou, isolando comunidades e prejudicando a economia local. Essa alteração climática representa mais do que um simples inconveniente para os produtores de cacau, afetando diretamente a qualidade e a quantidade da produção.

O cacaueiro, planta nativa da Amazônia, prospera em ambientes com calor moderado, alta umidade e chuvas regulares. Em São Félix do Xingu, o regime de chuvas, que historicamente durava 7,2 meses (de outubro a maio), com pico em março, tornou-se imprevisível. Essa instabilidade climática afeta a sensibilidade da planta, impactando a produção e a renda dos agricultores.

As temperaturas em Altamira, que antes variavam entre 20°C e 36°C, frequentemente ultrapassam os 39°C nos meses mais quentes. A estação seca, que costumava durar 4,8 meses, tem se estendido, causando ressecamento do solo. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) projeta que, até 2050, as mudanças climáticas podem reduzir de 37% a 73% das áreas adequadas para o cultivo de cacau na Amazônia.

Essa nova realidade climática exige uma adaptação constante das práticas agrícolas. Famílias que seguiram o mesmo calendário por gerações agora precisam ajustar suas estratégias ano a ano. O ciclo de colheita, antes concentrado até agosto, atrasou-se, estendendo-se de março a agosto. O cacau do Xingu, reconhecido internacionalmente por sua qualidade, enfrenta desafios para manter suas características únicas.

A região do Xingu é responsável por 75,86% da produção do Pará, que representa mais da metade da produção nacional. Em 2024, o Pará alcançou uma produtividade média de 946 kg por hectare, superando significativamente a Bahia, com 250 kg por hectare. Na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, os ribeirinhos relatam incêndios em áreas que antes não eram afetadas, além da redução drástica do nível do rio, dificultando o transporte e a comunicação.

A situação no Xingu reflete um padrão global, com o preço do cacau subindo 136% entre julho de 2022 e fevereiro de 2024, segundo dados da UNCTAD. A África Ocidental, que detém 70% dos cultivos mundiais, também enfrenta problemas de produtividade devido às mudanças climáticas. Estudos indicam que o desmatamento na região do Rio Xingu pode reduzir em 7% a precipitação anual no Mato Grosso, mostrando a interconexão entre a preservação florestal e a estabilidade climática.

Diante desses desafios, os produtores estão testando variedades de cacau mais resistentes ao calor e à seca, implementando sistemas de irrigação e adotando técnicas agroflorestais para manter a umidade do solo. A diversificação das culturas e o uso de sistemas agroflorestais surgem como alternativas para garantir a renda e proteger as plantações. Organizações internacionais alertam que a adaptação às mudanças climáticas é fundamental para o setor cacaueiro.

Para 2025, a expectativa é que o Brasil produza cerca de 300 mil toneladas de cacau, com a região Norte liderando a produção nacional. A capacidade dos produtores de se adaptarem às novas condições climáticas será determinante para alcançar essas metas. A transformação climática no Xingu evidencia a urgência de ações coordenadas para mitigar os impactos das mudanças climáticas na segurança alimentar global e na sustentabilidade da produção de cacau.

Via InfoMoney

Artigos colaborativos escritos por redatores e editores do portal Vitória Agora.