Desafios do Sistema Alimentar no Brasil

Explore os principais desafios do sistema alimentar e suas implicações para a sociedade brasileira.
21/07/2025 às 06:23 | Atualizado há 1 mês
Colapso do sistema alimentar
Desafios climáticos e financeiros podem devastar a agricultura mundial. (Imagem/Reprodução: Forbes)

Um estudo recente da revista Nature aponta que o aquecimento global, com a perda de 120 calorias diárias por pessoa a cada grau, representa um risco crescente não só para a segurança alimentar, mas também para a estabilidade financeira global. A instabilidade no sistema alimentar pode desencadear crises em cascata, incluindo inflação, interrupções no comércio e pressão sobre o crédito soberano.

Os mercados financeiros ainda não reconhecem plenamente os riscos associados ao Colapso do sistema alimentar, tratando-os como periféricos em modelos de precificação e políticas fiscais. Essa desconexão entre clima e finanças pode levar a consequências graves, especialmente com a intensificação dos eventos climáticos extremos. A próxima crise financeira pode vir de um colapso climático no sistema alimentar global, e não dos setores imobiliário ou tecnológico.

Modelos climáticos indicam que, sob altas emissões, a produção global de culturas básicas pode cair entre 20% e 35% até o final do século, mesmo com adaptação. Um estudo da Nature prevê que a produção de trigo, milho e soja pode diminuir quase um terço se o aquecimento ultrapassar 2°C. O milho, que representa quase 40% da produção mundial de grãos, é um pilar da segurança alimentar, do comércio e do controle da inflação. A redução na produção agrícola leva a choques de oferta, impulsionando a inflação.

Os mercados de seguros, que já enfrentam dificuldades para precificar o risco climático na agricultura, estão emitindo alertas. Um relatório de 2025 da Howden e do Banco Europeu de Investimento revela que apenas 20% a 30% dos agricultores europeus têm cobertura para perdas relacionadas ao clima, resultando em bilhões em perdas não seguradas. As mudanças climáticas podem tornar partes do sistema alimentar fundamentalmente não seguráveis.

À medida que seguradoras privadas se retiram de áreas de alto risco, instituições públicas são forçadas a absorver perdas crescentes, aumentando a pressão fiscal sobre economias dependentes da agricultura. A volatilidade nos mercados de commodities cresce, com investidores especulando sobre a escassez de alimentos, o que amplifica o risco sistêmico. Howard Botts, cientista-chefe da Cotality, adverte que os choques climáticos na disponibilidade de seguros não permanecerão contidos no setor agrícola.

Ferramentas amplamente utilizadas, como o Custo Social do Carbono (SCC), não consideram os efeitos em cascata da degradação do sistema alimentar, como esgotamento do solo, escassez de água e colapso da biodiversidade. A agricultura não é apenas uma grande fonte de metano e óxidos de nitrogênio, mas sua degradação elimina amortecedores naturais que antes protegiam comunidades de disrupções econômicas em cadeia. Ibrahim AlHusseini, da FullCycle, alerta que a queda nos rendimentos de culturas básicas provocará uma disrupção estrutural em todo o sistema alimentar.

O risco do sistema alimentar não é apenas subestimado, mas também mal gerido. Ministérios da Fazenda tendem a tratar choques alimentares como questões humanitárias, enquanto bancos centrais os ignoram em suas projeções de inflação. Francisco Martin-Rayo, CEO da plataforma de risco climático Helios, critica o G7 por ignorar o problema da adaptação do sistema alimentar global. Ele adverte que as projeções indicam uma queda de 30% a 40% nas produções de trigo e milho até o final do século, o que representa uma crise de subscrição em andamento.

O sistema financeiro global ainda está estruturado com base em premissas de abundância e estabilidade, mas o sistema alimentar está se tornando um vetor ativo de volatilidade. Para evitar outro colapso causado por risco ignorado, líderes financeiros e políticos devem tratar os sistemas alimentares como materialmente relevantes para as finanças, e não como uma variável secundária. Isso implica revisar modelos de crédito e seguro, investir em resiliência hídrica e do solo, e financiar sistemas alimentares diversificados que possam suportar disrupções.

Via Forbes Brasil

Artigos colaborativos escritos por redatores e editores do portal Vitória Agora.