A Eletronuclear está enfrentando uma grave crise financeira e pede um aporte emergencial de R$ 1,4 bilhão à ENBPar. Sem esse recurso, a empresa pode ter seu caixa totalmente esgotado em novembro, impactando diretamente a operação das usinas de Angra dos Reis.
A situação é complicada devido à venda da participação da Eletrobras para a Âmbar Energia, que ainda não se concretizou. Ambas as empresas discutem a responsabilidade pelas dívidas da Eletronuclear, enquanto o governo hesita em liberar os recursos, exigindo um plano de sustentabilidade antes de qualquer ajuda financeira.
O futuro da Eletronuclear se mostra incerto com a falta de um financiador claro. A estatal precisa quitar dívidas significativas e assegurar recursos para a conclusão da usina Angra 3, que permanece paralisada. A transformação no modelo de financiamento da energia nuclear em 2026 pode trazer novas oportunidades, mas até lá, a Eletronuclear precisa de apoio imediato para evitar colapsos.
A Eletronuclear pede ajuda para evitar um colapso financeiro. A estatal brasileira, responsável pelas usinas nucleares de Angra dos Reis, solicitou um aporte emergencial de R$ 1,4 bilhão à ENBPar, holding que representa a União no setor. Sem essa injeção de capital, a empresa prevê que seu caixa se esgotará em novembro.
A situação da Eletronuclear é delicada e reflete um impasse que se arrasta há meses. A Eletrobras, agora rebatizada como Axia Energia, vendeu sua participação majoritária para a Âmbar Energia, do grupo J&F, por R$ 535 milhões. No entanto, a transação ainda não foi finalizada, e nenhuma das partes parece disposta a arcar com as responsabilidades financeiras da estatal.
A Axia Energia alega que já se desfez do ativo, transferindo a responsabilidade das dívidas para a J&F. Por outro lado, a Âmbar Energia argumenta que ainda não detém a propriedade formal da participação, impossibilitando o investimento de recursos na Eletronuclear. Diante desse cenário, a estatal se encontra sem um financiador claro, enquanto o governo hesita em liberar os recursos necessários.
O Ministério da Fazenda mostra resistência em realizar novos aportes, especialmente em um momento em que negocia um empréstimo de R$ 20 bilhões para os Correios, com garantia do Tesouro Nacional. A pasta defende que qualquer ajuda financeira à Eletronuclear deve ser acompanhada de um plano de sustentabilidade robusto. A ENBPar, por sua vez, tenta convencer o Tesouro de que o repasse é crucial para reorganizar a empresa e evitar a antecipação de R$ 6,5 bilhões em dívidas com o BNDES, Caixa e bancos privados.
A urgência da situação se agrava com o esgotamento do caixa da Eletronuclear. A empresa precisa quitar R$ 570 milhões em dezembro para o BTG e o Banco ABC, referentes a obras de extensão da vida útil de Angra 1 por mais 20 anos. Além disso, a estatal acumula R$ 700 milhões em débitos com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), fornecedoras de combustível, e gasta cerca de R$ 1 bilhão anualmente para manter Angra 3, usina que permanece inconclusa.
A Eletronuclear foi criada em 1997, a partir da reestruturação da Nuclebrás, antiga subsidiária da Eletrobras responsável pelo programa nuclear brasileiro desde os anos 1970. A empresa foi estabelecida com o objetivo de concentrar a operação das usinas Angra 1 e 2 e concluir Angra 3, projeto iniciado durante o período da ditadura militar e interrompido diversas vezes ao longo das décadas.
A legislação brasileira impede a privatização da geração de energia nuclear, mantendo a Eletronuclear sob controle direto da União, mesmo após a Eletrobras se tornar uma empresa de capital misto. Essa estrutura peculiar coloca a estatal em uma posição delicada, dependente do governo para financiamento, mas sem os mesmos privilégios de outras estatais lucrativas, como a Petrobras e o Banco do Brasil.
A privatização da Eletrobras, em 2022, intensificou a fragilidade desse arranjo. A operação resultou na criação da ENBPar, holding pública responsável por abrigar os ativos estratégicos que não poderiam ser transferidos para a iniciativa privada, incluindo a participação em Itaipu e o controle da Eletronuclear.
Com a privatização, a Eletrobras se desvinculou das responsabilidades financeiras da Eletronuclear, mantendo apenas a obrigação de investir R$ 2,4 bilhões em debêntures da estatal. Espera-se que esse papel seja assumido pela Âmbar Energia, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, injetando recursos na empresa. No entanto, o futuro da Eletronuclear permanece incerto.
O impasse atual decorre dessa complexa engenharia institucional. A Eletronuclear é controlada pela União, mas possui sócios privados que não injetam capital. Opera duas usinas lucrativas, Angra 1 e 2, responsáveis por cerca de 3% da energia do país, mas também arca com os custos de Angra 3, usina que consome recursos sem gerar receita. A falta de perspectiva de retomada de Angra 3 agrava ainda mais a situação financeira da estatal.
A história de Angra 3 é fundamental para compreender a situação da Eletronuclear. O projeto, concebido na década de 1980, já consumiu R$ 12 bilhões e está paralisado há quase dez anos. O BNDES estima que seriam necessários R$ 23 bilhões para concluir a obra ou R$ 21 bilhões para abandoná-la.
A diferença entre os custos de conclusão e abandono é considerada pequena, impedindo uma decisão definitiva. Nenhum governo se dispôs a investir para finalizar a usina, nem a arcar com o custo político de abandonar um investimento bilionário.
O custo estimado da energia de Angra 3, R$ 653 por megawatt-hora, segundo o BNDES, supera o das térmicas a gás, em um sistema que opera com excedente de oferta. Apesar disso, o Ministério de Minas e Energia insiste que a obra é estratégica e pretende atualizar os estudos junto ao BNDES antes de decidir sobre a retomada.
A partir de janeiro de 2026, um novo modelo de financiamento da energia nuclear no Brasil entrará em vigor. Uma lei redistribuirá o custo da eletricidade produzida por Angra 1 e 2 entre todos os consumidores do país, por meio de um adicional tarifário. Atualmente, esse custo é concentrado em contratos específicos com poucas distribuidoras.
Essa mudança, que isenta as famílias de baixa renda, reduz o risco de desequilíbrio financeiro da Eletronuclear e deve garantir receitas mais previsíveis para a operação das usinas. Esse novo cenário atraiu o interesse da Âmbar Energia no setor, que aposta em um colchão tarifário estável para planejar investimentos de longo prazo.
A entrada da Âmbar Energia representa um teste para o novo modelo do mercado nuclear brasileiro. No entanto, enquanto a transação não é concluída, a Eletronuclear permanece sozinha e dependente de ajuda financeira.
Via InvestNews