Durante décadas, o tijolo Lego foi um símbolo de simplicidade: plástico, encaixe, imaginação. Na CES 2026, em Las Vegas, essa ideia ganhou uma nova camada. O Grupo Lego apresentou as Smart Bricks, peças que mantêm o formato clássico 2×4, mas escondem algo inédito em seu interior: um computador em miniatura, com chip próprio, capaz de processar informações.
Não se trata de mais um brinquedo eletrônico. É uma mudança silenciosa no próprio conceito do que é um Lego — e no tipo de criatividade que ele pode despertar.
O que são, afinal, as Smart Bricks?
Externamente, as Smart Bricks são praticamente idênticas às peças tradicionais. Mesmo tamanho, mesmo encaixe, mesma compatibilidade com outros blocos. A diferença está dentro. Cada tijolo carrega um chip ASIC personalizado, desenvolvido especificamente para operar dentro das limitações físicas da peça.
Esse chip permite que o tijolo:
- reconheça quando está conectado a outros blocos;
- troque dados com peças vizinhas;
- execute comandos simples;
- reaja a estímulos do conjunto.
Em vez de depender apenas da imaginação do construtor, o Lego passa a responder ao que foi construído.
Por que a Lego fez isso agora?
A Lego vem observando há anos uma mudança no modo como crianças e jovens interagem com tecnologia. Tablets, jogos digitais e programação já fazem parte do cotidiano. O desafio sempre foi integrar esse universo ao brincar físico, sem transformar o Lego em “apenas mais um gadget”.
As Smart Bricks parecem ser a resposta a essa tensão. Em vez de substituir o brinquedo tradicional, a Lego adiciona uma camada invisível de inteligência, mantendo a lógica do montar, errar, desmontar e tentar de novo.
Não é uma ruptura agressiva. É uma evolução discreta.
Um computador escondido em um brinquedo
O uso de um chip ASIC chama atenção porque não é uma escolha trivial. Diferente de chips genéricos, um ASIC é criado para uma função específica. Isso indica que a Lego não está apenas testando uma ideia, mas apostando em escala, eficiência energética e confiabilidade.
O uso de um chip ASIC chama atenção porque não é uma escolha trivial. Diferente de chips genéricos, um ASIC é criado para uma função específica. Isso indica que a Lego não está apenas testando uma ideia, mas apostando em escala, eficiência energética e confiabilidade.
Cada tijolo não é um “mini computador poderoso”, mas um nó inteligente dentro de um sistema maior. A inteligência emerge do conjunto, não da peça isolada. É uma lógica parecida com a de redes, colmeias ou sistemas distribuídos.
Para quem monta, isso significa que estruturas diferentes podem se comportar de formas diferentes — mesmo usando as mesmas peças.
Por que começar com Lego Star Wars?
Os primeiros kits com Smart Bricks chegam ao mercado em 1º de março, todos dentro da linha Lego Star Wars. A escolha não é casual. Essa é uma das franquias mais populares da marca, com público que vai além das crianças pequenas.
Star Wars já trabalha, em seu universo narrativo, com conceitos como sistemas, inteligência, máquinas e redes. Isso cria um terreno fértil para testar a recepção das Smart Bricks em histórias que já envolvem tecnologia e estratégia.
É um laboratório com fãs engajados — e atentos.
Isso é brinquedo ou é tecnologia educacional?
A resposta honesta é: os dois. Mas a Lego toma cuidado para não usar discursos pedagógicos pesados. As Smart Bricks não exigem que a criança “aprenda programação” formalmente. Elas permitem que conceitos como lógica, sequência, causa e efeito surjam naturalmente da brincadeira.
Ao montar, o usuário não escreve código. Ele cria relações físicas que geram comportamentos. Isso aproxima o Lego de ideias usadas em robótica e computação, sem afastar quem só quer brincar.
É um tipo de aprendizado que acontece sem ser anunciado.
O que muda para quem já brinca com Lego?
Para quem já conhece Lego, a mudança é sutil no início. As peças continuam se encaixando da mesma forma. A diferença aparece quando o conjunto começa a reagir.
Uma nave pode “ativar” funções quando montada corretamente. Um conjunto pode mudar de comportamento se uma peça for removida. O erro deixa de ser apenas estrutural e passa a ser também funcional.
Isso transforma a brincadeira em um diálogo: o construtor propõe, o sistema responde.
Há riscos em colocar “cérebros” em brinquedos?
Sempre há questionamentos quando brinquedos se tornam inteligentes. Privacidade, durabilidade, dependência de tecnologia e custo são pontos levantados por especialistas.
A Lego tenta reduzir esses riscos ao manter as Smart Bricks autônomas, sem necessidade constante de conexão à internet. A inteligência está no tijolo, não em servidores externos. Isso preserva a experiência offline, um valor importante para a marca.
Ainda assim, é um território novo, que exigirá atenção conforme a tecnologia evoluir.
Não há previsão para o Brasil — e isso diz algo
Até o momento, não há previsão de lançamento das Smart Bricks no Brasil. Isso reforça a ideia de que o produto está em fase inicial, sendo observado de perto antes de uma expansão global.
Historicamente, a Lego costuma testar grandes inovações em mercados específicos antes de ampliar a distribuição. O silêncio sobre datas futuras sugere cautela — e a consciência de que esse tipo de mudança precisa ser bem assimilada.
O que significa a Lego lançar peças com cérebro digital?
Significa que o brinquedo deixa de ser apenas passivo e passa a participar da experiência. A Lego não está abandonando a imaginação; está oferecendo algo novo para dialogar com ela.
Quando o brinquedo começa a pensar junto
As Smart Bricks não são o fim do Lego tradicional. Elas são um sinal de que o brincar também acompanha o tempo em que vive. Em um mundo cada vez mais mediado por sistemas inteligentes, a Lego escolhe não resistir nem exagerar. Escolhe integrar.
Colocar um cérebro dentro do tijolo não transforma a criança em engenheira nem o brinquedo em máquina fria. Apenas amplia as possibilidades. E, como sempre aconteceu com Lego, o que vai sair disso depende menos da peça — e mais de quem a encaixa.
Via: https://tecmaker.com.br/lego-cerebro-dentro-do-tijolo/
