Os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) revelam um mercado de trabalho aquecido, com um número recorde de trabalhadores com carteira assinada e uma notável queda no desemprego. Especialistas apontam que esse cenário impulsiona o consumo e pode pressionar a inflação, adiando possíveis cortes na taxa de juros.
Economistas e analistas de grandes instituições financeiras destacam que o crescimento do mercado de trabalho tem se concentrado em setores informais, de menor complexidade. Essa tendência pode limitar o aumento da produtividade e comprometer o desenvolvimento sustentável do país a longo prazo.
O número de empregados com carteira assinada no setor privado alcançou um marco histórico, atingindo 39,8 milhões no trimestre encerrado em maio. Paralelamente, a taxa de desemprego apresentou uma queda significativa, chegando a 6,2%.
O rendimento médio real, já descontada a inflação, se manteve estável em R$ 3.457. Essa combinação de fatores, juntamente com a baixa taxa de desemprego, resultou em um aumento da massa salarial, que atingiu um novo recorde de R$ 354,6 bilhões.
Rodolfo Margato, economista da XP, acredita que o mercado de trabalho deve permanecer aquecido ao longo do ano, sem sinais de desaceleração. Ele ressalta que o emprego total continua em alta, os salários reais estão aumentando e a massa de renda se expande fortemente, mantendo os custos unitários do trabalho sob pressão.
Pedro Ros, CEO da Referência Capital, observa que a taxa de desemprego demonstra uma “relativa resiliência do mercado de trabalho“, embora ainda esteja inserida em um contexto de crescimento moderado e heterogêneo. Ele enfatiza que a criação de vagas está concentrada em setores de baixa produtividade, o que limita os ganhos de renda e a expansão do consumo.
Para Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, os dados indicam um aumento da ocupação em segmentos informais, o que restringe o impacto real sobre o consumo e a renda. Ele argumenta que, para um avanço mais sólido do emprego, é necessário aumentar a eficiência na alocação de capital, incentivar setores produtivos e garantir estabilidade institucional.
Theo Braga, CEO da SME The New Economy, defende a criação de um ambiente mais favorável ao empreendedorismo e ao crescimento de novos negócios. João Kepler, CEO da Equity Group, complementa que o desafio não se resume apenas à geração de vagas, mas também à promoção de uma nova dinâmica econômica baseada em inovação, tecnologia e produtividade.
Margato aponta que os dados corroboram um cenário de atividade doméstica resiliente e inflação de serviços ainda elevada em 2025. Ele destaca dados do Banco Central que indicam uma desaceleração na concessão de crédito e um aumento moderado na inadimplência, contrastando com a força do mercado de trabalho.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, afirma que o crescimento no nível de ocupação deve impulsionar a atividade econômica, mas também dificultar o controle da inflação. Igor Cadilhac, economista do PicPay, expressa preocupação com a nova regra do salário-mínimo, que busca garantir crescimento acima da inflação.
Moreno projeta que os patamares elevados do mercado de trabalho devem se manter ao longo do ano, encerrando 2025 com uma taxa de desemprego de 5,5%, considerada baixa para os padrões históricos do país. Cadilhac estima uma taxa média de desemprego de 6,4% para o final de 2025.
Os dados reforçam a perspectiva de manutenção de juros elevados para conter a inflação. Moreno prevê que os juros permanecerão estáveis em 15% por um período prolongado, mantendo-se nesse patamar até o final de 2026.
A XP projeta um crescimento de 2,5% para o PIB em 2025, abaixo dos 3,4% observados em 2024. Margato observa sinais mistos na economia, com crédito em desaceleração, mas um mercado de trabalho sólido, sustentando a visão de uma perda gradual de ímpeto da atividade econômica ao longo de 2025.
Via InfoMoney