Quando a psiquiatra brasileira Nise da Silveira dizia que os gatos eram co-terapeutas, muita gente achava que era apenas uma metáfora poética. Outros viam exagero, romantização ou até excentricidade. Mas o que ela realmente quis dizer com isso?
E mais importante: havia fundamento real nessa ideia — ou era só intuição?
A resposta é mais concreta, provocadora e atual do que parece.
Quem foi Nise — e por que ela pensava diferente
Nise da Silveira trabalhou durante décadas em hospitais psiquiátricos no Brasil, especialmente no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Em uma época marcada por eletrochoques, lobotomias e contenções físicas, ela fez uma escolha radical: recusou-se a tratar sofrimento psíquico com violência.
No lugar disso, abriu espaço para atividades expressivas — pintura, modelagem, convivência — e para algo ainda mais incomum: a presença livre de animais, especialmente gatos.
Essa decisão não foi decorativa nem sentimental. Foi clínica.
O hospital antes dos gatos: isolamento e ruptura
Para entender o impacto dos gatos, é preciso lembrar do cenário da época. Hospitais psiquiátricos funcionavam como espaços de segregação. Pacientes viviam em ambientes frios, supercontrolados, com pouquíssimos estímulos afetivos.
Nise observava algo essencial:
muitos pacientes não conseguiam mais se relacionar com pessoas, mas ainda reagiam à presença de um animal.
Não com palavras. Com gestos mínimos. Com atenção. Com cuidado.
Era aí que algo começava a se reorganizar.
O que os gatos faziam que ninguém mais conseguia
Os gatos não “tratavam” no sentido médico tradicional. Eles não davam ordens, não exigiam respostas, não interpretavam. Apenas estavam ali.
E isso fazia toda a diferença.
Segundo os relatos clínicos reunidos por Nise, os gatos:
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aproximavam-se sem invadir
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respeitavam o tempo do paciente
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aceitavam silêncio
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reagiam a pequenos gestos de afeto
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não julgavam comportamentos considerados “estranhos”
Para pessoas em sofrimento psíquico profundo, isso criava algo raro: uma relação sem ameaça.
Por que Nise usava o termo “co-terapeuta”
Aqui está um ponto que costuma ser mal interpretado.
Quando Nise chamava os gatos de co-terapeutas, ela não os colocava acima ou no lugar dos profissionais. O termo tinha um sentido muito específico: eles participavam do processo terapêutico sem linguagem, sem técnica formal, mas com impacto real.
Em outras palavras:
o gato não curava — mas criava condições para que a pessoa pudesse, aos poucos, se reorganizar internamente.
Isso incluía:
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despertar interesse pelo ambiente
-
estimular responsabilidade (alimentar, proteger)
-
favorecer vínculos afetivos seguros
-
reduzir estados de agitação e retraimento
Tudo isso sem uma única palavra.
A ligação com a psicologia profunda
Embora não fosse “junguiana ortodoxa”, Nise dialogava intensamente com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Para ela, o inconsciente se expressava por imagens, símbolos e relações — não apenas por fala racional.
Os gatos, nesse contexto, funcionavam como figuras simbólicas vivas:
independentes, sensíveis, silenciosas, capazes de circular entre proximidade e distância.
Para muitos pacientes, esse tipo de relação era mais acessível do que qualquer conversa estruturada.
Era apenas intuição? Ou havia método?
Um erro comum é tratar a abordagem de Nise como puramente intuitiva. Na prática, ela observava sistematicamente os efeitos da presença dos animais.
Ela registrava mudanças de comportamento, redução de agressividade, aumento de participação nas atividades expressivas e até melhora no cuidado pessoal.
Hoje, décadas depois, a ciência daria outro nome a isso:
intervenções assistidas por animais.
Mas Nise chegou lá antes — sem rótulos, sem modismos.
O que a ciência atual confirma
Estudos contemporâneos em psicologia, neurociência e saúde mental mostram que a convivência com animais pode:
-
reduzir níveis de cortisol (hormônio do estresse)
-
estimular a liberação de ocitocina
-
melhorar a regulação emocional
-
favorecer sensação de segurança
-
diminuir isolamento social
Ou seja: aquilo que Nise observava empiricamente hoje encontra respaldo científico.
Ela não estava romantizando os gatos. Estava descrevendo um fenômeno real com a linguagem que tinha à época.
Então… os gatos eram mesmo co-terapeutas?
Sim — no sentido exato que Nise pretendia.
Eles não substituíam tratamento.
Não resolviam traumas.
Não eram “milagrosos”.
Mas participavam ativamente do processo de cuidado, oferecendo algo que nenhum protocolo conseguia garantir: presença afetiva sem exigência.
Para pacientes profundamente feridos nas relações humanas, isso podia ser o primeiro passo de volta ao mundo.
Por que essa ideia ainda incomoda
Talvez porque ela desafie uma noção rígida de ciência.
Talvez porque valorize algo que não se mede facilmente.
Ou talvez porque nos lembre que cuidar não é apenas intervir, mas também permitir encontros.
Nise da Silveira pagou um preço alto por sustentar essa visão. Foi marginalizada, criticada, desacreditada. Ainda assim, manteve sua posição até o fim.
E o tempo, mais uma vez, acabou ficando do lado dela.
Uma reflexão final
Quando Nise dizia que os gatos eram co-terapeutas, ela não estava falando apenas de animais. Estava falando de outra forma de compreender o cuidado, menos autoritária, mais relacional.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja se ela estava certa.
Mas sim: por que demoramos tanto para levá-la a sério?
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Via: Gatos RonRon
