A **IA na educação** tem transformado a forma como conteúdos são criados e consumidos, levantando questões sobre a autenticidade dos materiais. Um professor da UFMG utilizou o ChatGPT para escrever uma carta de amor, o que gerou um debate sobre a ética e a transparência no uso dessas ferramentas. A evolução da IA torna cada vez mais difícil distinguir textos criados por humanos e por robôs, desafiando educadores e instituições.
A utilização de IA na educação pode gerar conteúdos com aparente falta de criatividade e estruturas repetitivas, mas a capacidade de refinar os resultados torna a identificação complexa. Existem softwares que afirmam detectar textos gerados por IA com alta precisão, mas a realidade é que a certeza absoluta é quase impossível. O foco principal deve ser garantir que os alunos aprendam, independentemente do uso da inteligência artificial como ferramenta de apoio.
A prática de ajustar os textos gerados por IA na educação dificulta ainda mais a distinção entre a escrita humana e a artificial. Um teste realizado pela BBC News Brasil mostrou que, ao solicitar que a IA escrevesse “como um humano”, a detecção de conteúdo gerado por IA caiu significativamente. Raquel Freitag, professora de sociolinguística da UFS, ressalta que a evolução constante das ferramentas de IA, com a inclusão de diversas variações linguísticas, aumenta sua precisão e dificulta a identificação.
A adaptação da educação à nova realidade é essencial, pois o uso da IA na educação já é uma realidade. O corretor ortográfico do Word, por exemplo, é um tipo de IA que utilizamos sem questionar. Professores estão adaptando suas práticas, buscando soluções que permitam o uso da IA sem comprometer o aprendizado dos alunos. Leonardo Tomazeli Duarte, da Unicamp, afirma que os modelos de linguagem natural têm avançado em estilo de escrita, tornando a identificação ainda mais desafiadora.
A questão do uso de travessões como indício de texto gerado por IA também ganhou destaque, com discussões sobre se o ChatGPT favorece o uso desse recurso. Adriana Pagano, da UFMG, percebe um uso mais frequente de travessões em textos gerados por IA, o que pode ser resultado do treinamento dos modelos com a língua inglesa. No entanto, a simples presença de travessões não é suficiente para diferenciar um texto gerado por IA de um texto humano.
Rodrigo Nogueira, da Maritaca AI, acredita que a distinção entre o humano e o artificial tende a se dissolver, com as IAs cada vez mais presentes em nossas frases e ações. A discussão real é quem gerou o pensamento, o humano ou a IA, em um cenário onde tudo estará mesclado.
As instituições de ensino discutem diretrizes sobre a incorporação de ferramentas de IA na educação. A UFMG criou a Comissão Permanente de IA para debater o uso ético, a elaboração de políticas e outras ações relacionadas à inteligência artificial. Ricardo Fabrino Mendonça, presidente da comissão, destaca a importância de não ter uma atitude meramente proibitiva, pois as pessoas já estão usando a IA de diversas formas.
A comissão da UFMG recomenda a transparência no uso de IA em trabalhos acadêmicos e a inclusão de debates sobre os impactos da IA na educação. Além disso, recomenda não usar sistemas de IA para identificar se o conteúdo foi gerado por um humano, devido à falta de precisão e à necessidade de privacidade das informações.
Leonardo Tomazeli Duarte avalia que o desafio será educar uma geração de “nativos LLM”, jovens que cresceram usando tecnologias como o ChatGPT. Ele já incorpora o uso de IA em sala de aula, exigindo que os alunos expliquem como usaram a ferramenta. Duarte acredita que a IA será integrada ao currículo de diversas áreas, como já ocorre com a estatística, desmistificando a tecnologia e deixando claro o que ela pode ou não fazer.
Um estudo da Universidade da Pensilvânia mostrou que alunos que usaram o ChatGPT para resolver exercícios de matemática tiveram melhor desempenho, mas pioraram nas provas sem ajuda da IA. A explicação é que os alunos passaram a usar a IA como “muleta”, deixando de aprender conceitos fundamentais.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2024–2028) tem como meta o desenvolvimento de modelos de linguagem em português, com dados nacionais que abrangem a diversidade cultural, social e linguística do país. Rodrigo Nogueira aponta que a soberania e o conhecimento contextual são as principais razões para investir nesse caminho. Uma IA treinada com base nas leis brasileiras já nasce sabendo as normas do país, o que dá uma vantagem em relação a um modelo genérico feito para o mundo todo.
A crescente utilização da IA na educação levanta questões sobre a autenticidade e o aprendizado, exigindo adaptações e debates nas instituições de ensino para garantir o uso ético e transparente dessas ferramentas. O desafio é educar uma geração que cresceu com a IA, incentivando o pensamento crítico e a busca por conhecimento.
Via G1